Como o fator psicológico influencia na rotina de treinos
- Vitor Silveira Porto
- há 3 dias
- 6 min de leitura
O fator psicológico influência nos treinos tanto para melhor quanto para pior. Sabendo lidar com isso, podemos fazer dos dias ruins menos ruins e dos dias melhores ainda melhores.
Todos que praticam corrida já devem ter notado essa variação de humor, confiança e motivação em diferentes momentos, há dias em que nos sentimos no topo e há dias em que pensamos em deixar tudo, isso é completamente normal, eu particularmente tenho certeza que é impossível ter sangue no olho todo dia. A questão é como lidar com os dias em que estamos com pouca potência, com menos vontade de agir.
Primeiro passo para estar motivado: Querer
É uma dica bem simples que tem fundamento na teoria de Deci e Ryan, teoria da autodeterminação, os autores estabelecem que a motivação se divide em extrínseca e intrínseca, sendo a primeira relacionada a recompensas e resultados e a segunda relacionada ao prazer e interesse pela realização da atividade. Sendo que em estudos realizados a motivação intrínseca foi apontada com a principal a gerar adesão e comprometimento com o treinamento a longo prazo.
Metas e treinos alinhados com o momento atual de vida colaboram e muito para não desmotivar o atleta amador porque este terá empecilhos que o profissional não tem, carga horária de trabalho, menor tempo livre, menor tempo de descanso, problemas cotidianos no geral.
Vale ressaltar sobre o profissional que eles vivem para treinar, o trabalho deles é esse, o que eles sabem fazer é correr, a vida deles é essa, jamais cometa o erro de se comparar a um profissional, o que vale é inspirar-se neles. O atleta profissional PRECISA treinar, há treinos em que ele não estará motivado e nem terá prazer pela tarefa, mas ele PRECISA fazer.
O amador pode parar de correr a qualquer dia e se matricular em outro esporte, nada prende o amador à corrida senão o seu próprio interesse. Como nutrir e aumentar o interesse/prazer pela tarefa é o que você encontra a seguir.
Respeite seu tempo e contexto
Respeitar o seu tempo de evolução e o seu contexto de vida é uma das maneiras de não perder esse interesse, uma das necessidades básicas apontadas por Deci e Ryan para isso é a competência, sentir-se capaz, para isso cada treino e objetivos concluídos com sucesso são importantes para desenvolver essa confiança e sentimento de competência, outra maneira de preservar isso é evitar algumas frustrações evitáveis:
Definir objetivos que não estejam adequados ao que você consegue se dedicar atualmente
Quebrar em treinos por desconsiderar o impacto da rotina no seu desempenho
Fazer comparações com pessoas que estão numa realidade muito diferente da sua, pessoas que têm problemas e recursos diferentes dos seus.
Agora é o momento de observar de forma um pouco mais dura a sua realidade e colocar o pé no chão, você busca atingir resultados de pessoas que treinam há muito mais tempo que você, pessoas que não tem o mesmo histórico de lesões que você. A comparação que você faz consigo também pode ser injusta, como aquela vez em que você teve sua semana mais pesada no trabalho, resolveu problemas o dia todo e ficou surpreso de não ter o mesmo desempenho no treino do que na semana passada.
Quer que o teu desempenho depois de dormir tarde e comer mal seja o mesmo do dia em que você dormiu cedo e se alimentou bem para o treino do dia seguinte. Seja realista ao se cobrar, você se desmotiva todo dia quando faz cobranças desse tipo, que não são realistas.
O ponto não é deixar de ter uma vida difícil, nem se proibir de sair de rotina, pelo contrário faça o que você quiser, mas não se puna por isso, se adapte:
Se eu dormi mal vou correr um pouco mais leve no dia seguinte
Meu trabalho está pesado então vou pedir para o treinador pegar mais leve até essa fase difícil passar
Quero ir num evento na véspera do dia em que faço meu longo, quem sabe eu adianto esse treino.
Estou me sentindo desmotivado sozinho, vou perguntar se meu treinador indica alguém para treinar junto
É mais fácil do que parece, percebe? É uma questão de equilibrar alguns pilares, entre trabalho, rotina, familiar, corrida e outros. Se você quer dar 100% na corrida então vai precisar abrir mão de outras coisas, e se não quiser abrir mão de outras coisas então esteja consciente de que sua evolução levará um pouco mais de tempo e não atingirá um nível extremamente alto. NINGUÉM exige que você evolua mais rápido ou chegue num nível mais alto, você não vive de corrida e a única pessoa que pode tirar ou colocar esse peso é você.
Conhecer as limitações da sua rotina e definir objetivos realistas evitarão muitas frustrações, e evitar frustrações tem como objetivo não minar sua confiança, pois ela é fundamental para o desempenho no esporte
Papel do treinador
Da perspectiva do treinador vemos 2 extremos de alunos, os que desejam performar e os que desejam lazer, em ambos casos o nosso papel é fazer você evoluir, o caminho pode ser mais rápido e mais duro ou mais gradual e suave. Nosso papel é ouvir o aluno e entender o que ele espera da corrida, então ajudamos o atleta a cumprir seu objetivo. Por vezes precisamos mostrar ao aluno que deseja performance que a corrida não se resume apenas a resultados, e outra vezes ao aluno do lazer que ele pode se divertir buscando correr cada vez melhor.
Equilibrar essas duas demandas é fundamental para manter a motivação e adesão no treinamento, tanto para a performance não virar ansiedade quanto para o lazer não virar monotonia. Contamos também com uma boa troca por parte dos atletas
Papel do atleta:
Se conhecer e repassar ao treinador o que lhe faz mais sentido, descubra se prefere performar ou apenas curtir o esporte e o quanto pretende se dedicar a ele. E ainda se conhecendo tem momentos em que a vida fica mais fácil e o seu desejo por performar pode crescer e em outros momentos a vida fica tão difícil que você só quer curtir, essa percepção sobre a corrida é mutável e é importante que você perceba essa mudança caso aconteça.
A demanda dos treinamentos pode ser maior ou menor do que você espera ou deseja e o seu papel é comunicar ao treinador. O treinador não vai ADIVINHAR se você está achando muito fácil a planilha ou se está muito pressionado por ela. O treinador também não vai adivinhar que você estava machucado, que estava numa semana puxada de trabalho, tudo que afeta sua corrida o treinador PRECISA saber.
Obviamente não é necessário entrar em detalhes com o treinador sobre sua vida pessoal mas é importante algum tipo de aviso como no seguinte exemplo:
“Nas últimas semanas estou com alguns problemas e acho que os treinos ficaram pesados demais, imagino que até final do mês seja bom pegarmos mais leve nos treinos.”
Esse tipo de troca é essencial para que os treinos sejam mais prazerosos de fazer e que o nível de dificuldade esteja adequado para não gerar frustrações nem monotonia. Pois são duas coisas que afetam diretamente a sua motivação.
Psicológico em dia, treino em dia!
Compreendendo e respeitando suas próprias necessidades, conversando com seu treinador e fazendo os ajustes necessários é esperado que sua motivação naturalmente cresça.
Porém mesmo fazendo tudo certo tem dias que ela não vai chegar e você precisará de disciplina, e quando esse dia chegar é importante que você não dê tanta importância para a autocrítica que você faz quando está num dia ruim, vá pra rua, liga o gps, faz o que precisa ser feito, no próximo treino talvez você melhore, e se não melhorar repete essa dica.
O essencial depois de ler todo esse conteúdo é que você dê ouvidos aquilo que realmente te deixa motivado, considere equilibrar a corrida com outras áreas da vida de forma realista e mantenha uma troca de ideias com seu treinador sempre que sentir necessidade, quando você entra na 040 não está apenas comprando planilha, está contratando um treinador que além de te passar treino vai te ajudar a se relacionar melhor com a corrida e isso sim é aprender a correr.
Referências
Alkasasbeh WJ, Akroush SH. Sports motivation: a narrative review of psychological approaches to enhance athletic performance. Front Psychol. 2025 Aug 4;16:1645274. doi: 10.3389/fpsyg.2025.1645274. PMID: 40831475; PMCID: PMC12358434.
Lochbaum M, Sherburn M, Sisneros C, Cooper S, Lane AM, Terry PC. Revisiting the Self-Confidence and Sport Performance Relationship: A Systematic Review with Meta-Analysis. Int J Environ Res Public Health. 2022 May 24;19(11):6381. doi: 10.3390/ijerph19116381. PMID: 35681963; PMCID: PMC9180271.


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