Período de base: onde muitos erram sem perceber
- Caio de Carvalho Loureiro

- 16 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
“A maioria não falha por falta de esforço, mas por excesso no momento errado.”
Essa frase resume bem o que acontece no período de base. O corredor começa motivado, disposto a fazer mais, correr mais forte, acelerar o processo. O problema é que o corpo ainda não está pronto para sustentar isso. E é justamente aí que muitos erram sem perceber.
O período de base não é sobre mostrar desempenho. É sobre preparar o corpo para aguentar o que vem depois. Volume, impacto, intensidade, tudo isso cobra um preço. A base existe para que esse preço seja pago aos poucos, de forma inteligente.
As escolas mais consistentes do treinamento sempre bateram nessa tecla. Antes de correr rápido, é preciso aprender a sustentar. Antes de buscar performance, é preciso criar tolerância ao treino.
O que realmente se constrói na base
Durante o período de base, o foco está na construção da capacidade aeróbica, no fortalecimento estrutural e na adaptação progressiva do corpo ao impacto da corrida.
É aqui que o sistema cardiovascular se desenvolve, que músculos, tendões e articulações aprendem a lidar com a repetição do gesto e que o corpo cria eficiência para correr gastando menos energia.
Correr devagar, correr mais leve e correr com controle não é perda de tempo. É investimento. Quem tenta pular essa etapa até pode evoluir rápido no começo, mas quase sempre paga a conta depois, seja com lesão, estagnação ou queda de rendimento.
Onde o fortalecimento entra nesse processo
Um erro comum é achar que fortalecimento só importa quando a intensidade sobe. Na prática, ele é ainda mais importante na base.
O fortalecimento nesse período não é para deixar ninguém “forte” no sentido estético. Ele serve para criar suporte. Suporte para o volume. Suporte para o impacto. Suporte para que o corpo aguente correr semana após semana sem quebrar.
Exercícios simples cumprem esse papel muito melhor do que protocolos mirabolantes.
Agachamentos ajudam a desenvolver força e controle de quadril, fundamentais para a estabilidade da passada.
Afundos trabalham força unilateral e controle, reduzindo assimetrias comuns na corrida.
Levantamentos de quadril fortalecem glúteos, essenciais para absorção de impacto e eficiência mecânica.
Levantamento terra fortalece a cadeia posterior, ajudando na propulsão e na absorção de impacto.
Step-up imita o padrão unilateral específico da corrida, melhorando a coordenação e força funcional.
Panturrilhas em pé ou sentado aumentam a tolerância do complexo tornozelo Aquiles, uma das regiões mais exigidas na corrida.
Exercícios de core melhoram a estabilidade do tronco, facilitando a manutenção da técnica ao longo do treino.
Rotação torácica ajuda na mecânica de braço e na respiração.
Mobilidade de quadril melhora amplitude e eficiência da passada.
Mobilidade de tornozelo permite melhor contato do pé com o solo.
Nada disso precisa ser extremo. Precisa ser consistente.
Treinos importantes no período de base
Outro erro frequente é acreditar que a base se resume apenas a rodar leve o tempo todo. As grandes escolas de treinamento concordam que, mesmo nesse período, o corpo precisa de estímulos variados, desde que bem dosados.
Tiros curtos entre 50 e 400 metros aparecem como estímulo neuromuscular, ajudando a manter coordenação, economia de corrida e velocidade sem gerar alto estresse metabólico. Tiros em rampa e rodagens com subida desenvolvem força específica, reforçam a mecânica e aumentam a tolerância ao impacto de forma natural. As rodagens leves continuam sendo o pilar central, responsáveis por expandir a capacidade aeróbica e permitir maior volume com baixo custo fisiológico. Caminhadas e a alternância entre caminhada e corrida também fazem parte do processo, especialmente para iniciantes ou em fases de adaptação, ampliando o tempo de estímulo sem sobrecarregar o corpo.
Em diferentes escolas, africana, europeia, russa ou americana, a lógica é a mesma. Variar estímulos, controlar intensidades e respeitar a progressão. A base não elimina a velocidade. Ela a prepara.
Base não é empolgação. É estratégia.
O período de base exige paciência. Ele não entrega grandes emoções, mas entrega algo muito mais valioso: continuidade.
É nessa fase que o treinador segura o atleta, controla volume, respeita ritmos e ajusta cargas. Não para limitar, mas para permitir que o processo aconteça sem interrupções.
Quem entende isso chega mais longe. Quem ignora, quase sempre precisa parar e recomeçar.
A base não acelera o corredor. Ela sustenta tudo que vem depois.
Conclusão
Errar na base não costuma parecer erro no começo. Pelo contrário, muitas vezes parece progresso. Mas a corrida não premia quem força demais cedo. Premia quem constrói com inteligência.
Treinar bem não é fazer mais. É fazer o que o corpo consegue sustentar hoje para poder evoluir amanhã.
O erro não está em acelerar demais na prova. Está em não ter construído o suficiente antes.
Confia no processo. A pressa cobra juros altos.


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